O novo consumidor está mudando o mercado imobiliário
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Quem trabalha há décadas no mercado imobiliário aprende a perceber mudanças antes mesmo que elas apareçam claramente nas estatísticas. Em mais de 30 anos de profissão, acompanhei uma transformação profunda na maneira como as pessoas escolhem onde morar. E uma das mais importantes está na configuração das famílias.
Quando comecei, no início dos anos 1990, era comum encontrar famílias maiores procurando casas e sobrados de 200, 250 ou até 300 metros quadrados. O quintal tinha grande importância, assim como o número de quartos. Hoje, essa realidade mudou. As famílias diminuíram, as pessoas se casam mais tarde, muitos casais optam por não ter filhos e cresce o número de pessoas que vivem sozinhas.
Isso não significa que o brasileiro deixou de querer um imóvel. Significa que passou a procurar outro tipo de imóvel. Os dados mais recentes de Curitiba reforçam uma percepção que já faz parte do nosso dia a dia. No segundo trimestre de 2026, apartamentos de um dormitório, incluindo estúdios, responderam por 54,3% das unidades novas comercializadas na cidade, segundo levantamento da Brain Inteligência Estratégica apresentado pela ADEMI-PR.
Não estamos falando apenas de apartamentos menores. Estamos falando de uma mudança na composição da demanda. O aumento dos divórcios é outro reflexo dessa transformação. Segundo dados do IBGE reproduzidos em levantamentos sobre o tema, o número de divórcios no Brasil cresceu 163% entre 2000 e 2022. Não vejo isso como algo a ser comemorado pelo mercado. Mas, como profissionais, precisamos compreender as consequências habitacionais dessas mudanças. Uma separação pode significar a formação de dois novos núcleos de moradia, assim como pessoas que vivem sozinhas ou casais sem filhos apresentam necessidades diferentes.
Por isso, acredito que o mercado precisa deixar de pensar em um único consumidor padrão. Precisamos entender como as pessoas vivem para oferecer produtos que façam sentido para cada realidade.
A pandemia também acelerou essa transformação. As pessoas passaram a perceber a importância da casa e valorizar características que antes recebiam menos atenção. Sacadas, churrasqueiras, áreas verdes, academias, espaços de convivência e bom paisagismo ganharam relevância. O consumidor passou a olhar não apenas para o apartamento, mas para tudo aquilo que existe ao redor dele.
O compacto, portanto, não significa necessariamente um produto pior. Para quem mora sozinho, para um casal sem filhos ou para um investidor, um imóvel menor e bem localizado pode fazer mais sentido do que uma unidade grande e distante dos serviços.
A nova geração também demonstra que comprar imóvel continua fazendo parte dos planos. Segundo o levantamento da ADEMI-PR, 67% dos entrevistados da Geração Z, entre 21 e 28 anos, manifestam intenção de adquirir um imóvel. A diferença está também na forma de pesquisar: antes de visitar um empreendimento, esse consumidor busca informações online sobre localização, produto e condições de pagamento.
Depois de mais de três décadas no setor, acredito que essa seja uma das maiores mudanças que testemunhei. No passado, muitas vezes começávamos pelo imóvel e procurávamos o cliente para ele. Hoje, precisamos começar pela vida do cliente. Quem vai morar ali? Como trabalha? Tem filhos? Pretende ter? Mora sozinho? Recebe amigos? Precisa de espaço para trabalhar em casa? As respostas ajudam a definir o produto.
As pessoas mudaram, as famílias mudaram e a relação com a cidade mudou. E, quando a vida muda, o lugar onde escolhemos morar também precisa mudar.
Tudo certo! Continue acompanhando os nossos conteúdos.
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