História de janela
Crônicas

História de janela

É fim de tarde e você está em pé, de frente para a janela, encarando o mundo lá fora com as costas viradas para o de dentro. É o que tem para hoje, o que tinha para ontem e o que terá para amanhã, o interior de casa já tão enfadonho que como encontrar graça nele? Entendo bem, já deu, e nem dá para reclamar tanto porque temos sorte de estar em um lugar fechado, seguro, sem ter que encarar o lá fora nesse momento. Mas, sim, encheu o saco ficar apenas em casa, o lá fora acessível apenas através desse vidro empoeirado, a casa apenas como uma moldura complexa para a arte de viver lá fora.

E pouco a pouco, dia a dia, semana a semana, mês a mês – quantos de isolamento já? – essa película de poeira aumenta e ganha corpo, deixando a vista com uma pincelada de cansaço, tipo sépia, filtro analógico e espontâneo que coloca o lá fora onde pertence: no passado. A eficiência artística e filosófica do efeito é tanta que você nem liga para a sujeira, que fique ali.

Você me contará mais tarde que pensou em usar a ponta do dedo como pincel para escrever #TBT na sujeira e mostrar como se sente, como quando escrevem me lave nos carros sujos, mas deixou isso para a próxima quinta-feira.

A janela fechada, aliás, porque vai que alguém tosse lá fora, mesmo tão distante, e os perdigotos se aventurem no mais infame dos balés para colocar o não tão novo coronavírus aí dentro. Medo do vento norte? Eu também tenho. 

Você cansa da janela que revela a cidade e recorre a outra, menor, que revela o mundo: tira o celular do bolso, desbloqueia a tela e acessa o Instagram. Ok, forcei a mão nesse janela que revela o mundo, eu e você sabemos dos algoritmos que nos empurram para longe das postagens dos amigos e na direção das compras por impulso, como se o corredor final do supermercado, aquelas gôndolas de chocolate antes do caixa, estivesse sempre em nosso bolso. Ao fugir para dentro do feed, driblando marcas e influencers, você me encontra.

Quer dizer, não eu, mas algo assim, esse recorte do eu que habita minha conta de Instagram. Ali, num post, vê uma foto que tirei da minha janela aberta: um urubu voando com os prédios de Curitiba ao fundo. Precisei de zoom, muito zoom, profissional até, confesso, possível apenas com a câmera da minha namorada. Mas é, sim, uma foto da minha janela, com o urubu visto de cima, o rosto de perfil, uma asa para cima, outra para baixo, o bico apontando para a direita. Algo de agressivo, ali. Ou não, porque você aperta o like e segue para outra postagem no feed, beirando a indiferença.

Recebo a notificação de que você curtiu a minha postagem. Vejo e já te imagino em casa nessa heróica função de salvar vidas, inclusive a sua, através do trabalho hercúleo de encarar o mais profundo tédio e a pele se desfazendo em álcool gel. Estamos na mesma armadilha, aliás, essa coisa de ser não negacionista – afirmacionistas? – e montar a própria gaiola, pagando pelos custos dela todo mês. Preciso te mandar uma mensagem, inclusive, ver como você está.

Com seu like, vejo também a foto novamente, o urubu de uns dias atrás, desses tantos que volta e meia planam sobre a Rua XV, na frente de casa. A cabeça vermelha e enrugada, o bico evidente como os narizes que escapam das máscaras das pessoas lá embaixo. O bicho atrás de carniça e, mesmo assim, sem propor aumentar a oferta dela, diferente de tanta gente no Brasil.

Penso se você percebe tudo isso na foto, o motivo pelo qual eu olho para frente, para cima, não mais para baixo, para os nossos. Talvez eu tenha largado mão de entender, de dialogar, ou talvez só esteja cansado, substituindo as fotos de pessoas na rua pelas de pássaros no céu. Não que faça diferença, você ter flagrado isso ou não, a cada um cabe suas próprias nuances de pensamento.

Fecho o Instagram, travo a tela e guardo o celular no bolso. Encaro o mundo lá fora através da janela encardida e penso que preciso passar um pano nela, com urgência. Mas não vai ser hoje, estou com preguiça, e saio da frente da janela beirando a indiferença.