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Mercado imobiliário precisa de persistência e inovação

Fábio Garcez*

No mês de março, a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC) divulgou que a venda de imóveis novos cresceu quase 10% em 2022. A entidade também constatou que os imóveis encareceram: o preço médio teve um aumento de 10% em comparação com o ano de 2021.

Em relação aos aluguéis, os preços também subiram. Segundo o Índice FipeZap+, divulgado na segunda quinzena de abril pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o valor de novas locações aumentou 17,18% nos últimos 12 meses encerrados em fevereiro. 

A alta de preços é a maior desde 2011, e está relacionada à elevada taxa de juros na economia do país, que encareceu os custos do financiamento residencial e levou os brasileiros a optarem pelo aluguel. 

Além disso, outros fatores – como os custos da construção – podem influenciar diretamente na atividade da esfera imobiliária. Conforme a divulgação da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) cresceu 0,22% em abril, com aumento nos custos destinados a serviços e mão-de-obra.

Diante desse cenário repleto de expectativas e incerteza econômica, resiliência e inovação são “trilhas” essenciais para as incorporadoras imobiliárias chegarem a um desfecho positivo ao fim de 2023. 

Resiliência porque estamos diante dos desafios de um ano que enfrenta uma recessão econômica global, agravada pela alta de juros do crédito imobiliário, pelos resquícios da pandemia e pelo modelo híbrido de trabalho, que impulsionaram a desocupação dos imóveis corporativos. 

Já a inovação é requisito vital para a sustentabilidade dos negócios, principalmente por conta da nova prática imobiliária, estritamente vinculada à modernização e digitalização de seus processos de compra e venda, planejamento e das funções dos corretores.

Das atividades mais simples – como a assinatura digital de contratos e a realização de reuniões online – até às demandas mais complexas – como o planejamento e a gestão dos contratos e orçamentos –, a tecnologia está impactando o setor com destreza e facilidades que sensibilizam, sobretudo, as jornadas do cliente, do corretor e das incorporadoras.

Softwares e ferramentas de programação, por exemplo, são essenciais para que a cadeia imobiliária opere de forma integrada e 360o, permitindo uma atuação que compreenda desde a etapa pré-venda até o pós-venda, bem como a gestão de processos internos, conectando o ecossistema de ponta a ponta.

Já a venda de imóveis por meio de plataformas digitais promove a migração do “papel” para o meio virtual, acelerando as negociações e o próprio fluxo de compra e venda. Esse é um caso que exemplifica como o uso de aplicações tecnológicas pode impactar diretamente na desburocratização do setor como um todo, facilitando a rotina das imobiliárias, dos corretores e dos compradores.

Outro recurso que está sendo amplamente incorporado pelo ramo é a inteligência artificial, que permite às empresas performarem de forma mais estratégica e analítica, obtendo insights de seus públicos e de suas necessidades. 

O uso de chatbots é um exemplo de IA que foi absorvida entre as organizações do setor, mas que não obteve tanto sucesso. Com interações e usabilidade limitadas a um roteiro pré-determinado, os robôs não conseguem, muitas vezes, solucionar e atender às demandas dos clientes. 

Assim, esses mecanismos se transformaram em um empecilho para algumas empresas, pois não garantiam uma experiência satisfatória no contato e no suporte aos usuários.

Contudo, recalcular a rota e traçar caminhos alternativos faz parte da jornada de qualquer indústria, e fechar as portas para essa tecnologia não é uma opção. Com os avanços da inteligência artificial generativa nos últimos meses, encontramos um novo terreno de possibilidades para explorarmos. 

Por meio da combinação de dados e probabilidade, ela permite a criação de novas informações e de soluções customizáveis de acordo com o comportamento e com o perfil de cada público, além de interagir prontamente com os clientes. 

Essa conduta pautada pela digitalização e pelo uso da IA impacta diretamente na camada de atendimento ao consumidor, assim como possibilita que os mais diversos serviços sejam personalizáveis e adaptáveis de acordo com a demanda de cada segmento do ramo imobiliário.

Por último, cito ainda a big data, que consiste na análise e uso estratégico de um conjunto expressivo de dados. Ainda na direção de intensificar o processo de personalização, esse mecanismo permite identificar padrões de uso de plataformas, perfis de usuários, bem como potenciais áreas de negócio ou clientes ainda não explorados, podendo solucionar muitas dúvidas das empresas sobre seus públicos-alvo e sobre a performance de seus serviços. 

Se combinada com o machine learning, ou seja, com a automatização do aprendizado de sistemas, para que atuem a partir dos dados e aprimorem sua performance de forma independente, a big data tem potencial de revolucionar o mercado imobiliário.

As inovações tecnológicas que pontuo acima são apenas alguns exemplos dentro do vasto universo de trajetórias que a tecnologia pode oferecer. Quando combinados, esses recursos atuam sinergicamente na criação de uma experiência do cliente exclusiva e lucrativa para as empresas. 

Esta é uma maneira do mercado imobiliário lidar não só com complexo contexto econômico, como também atuar de forma mais integrada e alavancar suas vendas, por meio do crescimento da satisfação de seus stakeholders e de uma atuação mais estratégica, eficiente e sem burocracias.

Assim, não existe mapa secreto, tampouco roteiro ou guia fixo para o sucesso do setor. Existem múltiplos percursos, cada um com seus eventuais obstáculos e atalhos; cabe a cada um escolher qual travessia será mais adequada às necessidades, a fim de poder alcançar um destino mais positivo e transformador. Só assim a viagem terá valido a pena.

*Fábio Garcez é CEO do CV CRM [Construtor de Vendas], CRM líder no mercado imobiliário. 

Guilherme Blumer (ex-Brasil Brokers) e Daniel Santos (ex-Casa Mineira), fundadores da CredAluga