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Covid-19

Home office na pandemia: uma tendência que revela desigualdades

Thiago das Mercês
Escrito por Thiago das Mercês em 29 de outubro de 2020
Home office na pandemia: uma tendência que revela desigualdades
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Os impactos da pandemia de Covid-19 no mundo são enormes: mais de 43,1 milhões de pessoas contraíram a doença e mais de 1,1 milhão morreram, até aqui. O Brasil, por sua vez, vive um dos piores cenários entre os países: são mais de 5,3 milhões de casos e mais de 157 mil pessoas já perderam a vida. 

Como estratégia para conter o avanço do vírus, parte dos brasileiros acompanhou a tendência global e aderiu ao isolamento social. Tal medida obrigou boa parte das empresas a manter seus funcionários em home office. Em julho, eram 8,4 milhões de trabalhadores remotos no Brasil. Acontece que, ao esmiuçarmos os números deste sistema de trabalho, nos deparamos com uma espécie de medidor da desigualdade econômica no país.

A começar pela análise regional dos dados. Com base em números da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (PNAD) para a Covid-19, do Instituto Brasileiro de Geografia e EstatÍstica (IBGE), esse cenário fica evidente. Do total de profissionais em home office no Brasil no mês de julho (8,4 milhões), 4,9 milhões residiam no Sudeste, região que mais contribui para o Produto Interno Bruto (PIB) e que centraliza os trabalhadores mais qualificados. O Norte, região mais pobre do país, abrigava apenas 252 mil destes profissionais (3%).

Fica ainda mais gritante a discrepância quando colocamos frente a frente a proporção de trabalhadores em home office e a população ocupada em cada região. 

No mês de julho, a parcela de profissionais em teletrabalho no Brasil correspondia a 10% da população ocupada. Contudo, enquanto apenas 4% da população ocupada estava em home office no Norte, no Sudeste o percentual chegava a 13%. O Sul e o Centro Oeste contavam com 9% de sua população ocupada em trabalho remoto, ao passo que a proporção no Nordeste era de 7,8%.

Ou seja, o home office no Brasil pode ser considerado um privilégio restrito aos trabalhadores mais qualificados. Constatação que fica ainda mais evidente a partir da observação dos dados do IBGE da perspectiva do nível de instrução: quase 73% dos que estão em trabalho remoto concluíram o ensino superior ou uma pós-graduação. Por outro lado, menos de 1% destes profissionais não completou sequer o ensino fundamental.

A experiência do home office no Brasil ainda revela aspectos importantes a respeito do trabalho formal e informal. No segundo trimestre, os informais representavam 40% da população ocupada no mercado de trabalho. Entretanto, segundo o IBGE, dos funcionários em teletrabalho, eles correspondiam a apenas 15%, o que pode ser explicado pela baixa compatibilidade da atividade informal com as tecnologias essenciais ao trabalho remoto.

De certa maneira, o home office protegeu do desemprego os trabalhadores formais e mais qualificados. Enquanto os postos de trabalho da base da pirâmide foram dissolvidos, as ocupações formais e de alto rendimento foram preservadas, o que provocou um fenômeno curioso e inédito: a média salarial do país atingiu R$ 2,5 mil, a maior já registrada pelo IBGE.

Como o mercado reage ao trabalho remoto?

No início do ano, o mercado de escritórios estava aquecido. Segundo a multinacional americana JLL, especializada em imóveis corporativos, em janeiro a taxa de desocupação era de 13,6%, patamar que não era atingido desde o começo da última década. Além disso, havia expectativa de crescimento do segmento em 2020. Com a chegada da pandemia, a projeção para o mês de dezembro é de que 20,9% dos imóveis comerciais estejam vazios.

Esta estimativa pode ser explicada por uma pesquisa da consultoria KPMG. Observa-se um aumento no número de empresários que acreditam que o retorno ao trabalho presencial ocorrerá somente em 2021. Enquanto em abril e maio estes representavam apenas 9% dos entrevistados, em junho e julho a proporção subiu para 26%, ou seja, mais de um quarto dos respondentes.

Além disso, de acordo com uma pesquisa realizada pela Reuters com grandes companhias americanas, mais de 25 planejam diminuir o tamanho de seus escritórios em 2021. Com menos espaço físico no ano que vem, a ideia é que os escritórios recebam cada vez menos funcionários e transitem para um modelo híbrido, ou seja, o colaborador se dividirá entre a empresa e sua casa.

Para o diretor da imobiliária curitibana Cibraco Imóveis, Adalberto Scherer, as demandas das empresas estão mudando e os escritórios devem ser cada vez mais híbridos e provisórios. Mas o empresário entende, também, que, com perspicácia e agilidade por parte das imobiliárias, não devem haver grandes transtornos. 

“Nós temos obrigação de estar antenados a esses movimentos e, o mais rápido possível, estar preparados para poder atender toda essa demanda de pessoas, de empresas que querem estes novos formatos de atendimento comercial”, analisa o diretor da Cibraco Imóveis.

Apesar dos números e das previsões, Adalberto já enxerga uma reação no setor. “O mercado está começando, novamente, a se ajustar depois desse período mais intenso da pandemia. Os negócios começam a voltar, as pessoas estão voltando a alugar escritórios. Todas com muito cuidado em relação às restrições desse período de pandemia”, relata.

A dificuldade do home office e a maternidade

É verdade que a maior parte dos colaboradores que testaram o trabalho remoto aprovaram a experiência, afinal, uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) revelou que 7 a cada 10 entrevistados dizem querer permanecer em home office mesmo com o fim da pandemia. Mas conciliar o trabalho em casa com as atividades domésticas e as necessidades dos filhos tem se mostrado, desde já, uma tarefa ainda mais difícil para as mães, que geralmente acumulam essas responsabilidades.

Aí está outro recorte da desigualdade no home office, de gênero. Pela falta de suporte do companheiro ou por serem solteiras, elas estão mais sujeitas à necessidade de  trabalhar em várias frentes, o que causa sobrecarga. 

Nesse sentido, Lênia Luz, fundadora do portal Empreendedorismo Rosa, faz um alerta às mães: “busque a sua rede de apoio”. “Se você não tem uma, você vai precisar. De alguma forma, você vai ter que contar com o seu par, com quem mora com você. Se você é uma mãe solo, conte com alguma amiga. Enfim, você vai ter que reorganizar, se não tem uma rede de apoio, construa uma”, aconselha.

Foi justamente pelo grande número de mulheres alegando dificuldade para gerir seu tempo, que Lênia decidiu criar o programa Pink Mother, para mostrar para as mães que “elas podem deixar a peteca cair”.

“As mulheres precisam ter um espaço seguro de fala, onde elas não serão julgadas, mas sim acolhidas. Onde elas terão uma escuta ativa e onde a gente pode caminhar e traçar, para cada uma, o seu planejamento nessa nova organização dentro das suas casas”, explica Lênia.

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