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Millennials e os imóveis: não querem ou não podem comprar?

Ana Clara Tonocchi
Escrito por Ana Clara Tonocchi em 9 de setembro de 2020
Millennials e os imóveis: não querem ou não podem comprar?
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    Os millennials chegaram na idade que, tradicionalmente, se compra um imóvel. Então, a atenção do mercado imobiliário deve se voltar para como esta geração, que também pode ser chamada de Geração Y, consome a moradia. Conhecida pelo consumo de experiências, costuma ser tratada como uma geração movida ao desapego, que prioriza a vivência do que a posse. Mas a grande discussão é: millennials não compram imóveis por que não querem, ou por que não podem?

    Quem são os millennials?

    Para essa reportagem, recorremos à agência de pesquisa de tendências em consumo e comportamento, Box1824. Vamos utilizar o recorte geracional da consultoria, que considera:

    Nascidos entre 1946-1960 os Baby Boomers
Nascidos entre 1961-1980 a geração X
Nascidos entre 1981-1995 os Millennials ou geração Y
Nascidos entre 1996-2010 a geração Z

    Delinear as gerações é importante para entender seus comportamentos. “Os baby boomers brasileiros viveram na ditadura e tiveram muito consumo ideológico. No país, ainda não havia as multinacionais e a busca era por estabilidade. Foi uma geração de adultos que procurava um trabalho seguro, cargos públicos, por exemplo. Já na geração X, a relação com trabalho muda muito. A chegada de multinacionais, o início da globalização, faz desta uma geração mais agressiva, individualista. Seu principal consumo é o status e a grande concretude disto é formada por três pilares: casa própria, carro e linha telefônica”, explica Henrique Diaz, head de tendência da Box1824. “Já os millennials crescem em um momento de certa estabilidade no país. Estabilidade de moeda, economia, uma breve paridade com o dólar. Não são nativos digitais, mas viu o nascimento e cresceu junto da internet. Esta foi a primeira geração a ter um olhar mais global do mundo. Isso moldou muito a juventude millennial como uma juventude sonhadora”. 

    Millennials têm uma relação forte de confluência com as duas gerações que precederam – seja como avós, pais ou irmãos. “O millennial olha para o baby boomer e pensa que não quer ser ‘um funcionário público’. Olha para a geração X e não quer abrir mão da vida pessoal, se meter em uma multinacional. Aí, recorre ao empreendedorismo e à indústria criativa”, explica Henrique.

    O resultado é uma geração que rompe vários paradigmas. A construção de uma família tradicional não é prioridade, a compra de um carro não é prioridade e, finalmente, a compra de um imóvel não figura como prioridade. A palavra-chave do consumo da geração é a experiência.

    O que os dados dizem sobre os Millennials e os imóveis

    Uma pesquisa da Apartment List produzida no final de 2019 com millennials americanos aponta que muitos continuarão morando de aluguel não pelos benefícios de alugar ou pelo estilo de vida, mas pela falta de acesso financeiro à compra de imóveis. 61% afirmam que o dinheiro de entrada é um impeditivo, enquanto 38% afirma que é difícil acesso ao crédito.

    Já a Century21, de Portugal, entrevistou os millennials lusitanos. Quando o estudo foi publicado, em setembro de 2019, apontou que mais de 40% dos jovens entre 18 e 34 anos vivem na casa dos pais. Ainda: oito em cada dez millennials gostaria de ser proprietário de um imóvel.

    No Brasil, dados do IBGE mostram que 66,4% dos brasileiros são donos dos imóveis que vivem. Já uma pesquisa da MindMiners, de 2018, apontou comprar um imóvel é prioridade para 52% dos entrevistados.

    Marcus Araújo, CEO e fundador da Datastore, explica que a idade média do comprador de imóvel no Brasil está mudando. “O comprador de imóveis da classe média no Brasil, atualmente, está nos 43 anos. No programa Minha Casa Minha Vida, especificamente, a idade média é dos 35 aos 37 anos. É uma grande mudança para quando o programa começou. Na época, a maioria dos compradores tinha entre 25 e 27 anos”, analisa.

    Comprar um imóvel ou não comprar?

    Para Henrique, a relação com a compra de imóvel não é um negacionismo, mas é uma mudança de prioridades no consumo da moradia. “Os setores potencializados pela geração Y são gastronomia, turismo, festivais… Tudo envolvendo experiência. A construção de patrimônio não foi um foco geracional”, analisa.

    Para a ativista e criadora do Instituto Desabafo Social, Monique Evelle, a discussão é ainda mais profunda. “Pessoalmente, eu nunca acreditei nessa narrativa. De onde eu vim, da periferia de Salvador, é sempre uma batalha para ter uma casa, um carro. É uma questão de segurança. Não se trata só sobre segurança financeira, mas segurança emocional. Tem um vídeo meu de quando eu tinha 8 anos de idade que eu falava que eu queria comprar uma casa para meus pais, uma casa de praia e uma casa para mim”, conta.

    A segurança emocional é ainda mais importante para os millennials cujos pais não tiveram tanta estabilidade financeira assim. “A geração dos meus pais, preta e periférica, foi nômade por necessidade. Agora eu, enquanto millennial, podendo optar por não ser nômade, escolho a casa própria para ter estabilidade, segurança emocional e para não precisar reproduzir o nomadismo compulsório das gerações anteriores”, aponta Monique.

    Há uma questão de educação financeira (ou falta dela) quanto trata-se dos millennials. “Existe um conceito chamado dívida de experiência. Acontece, principalmente, na periferia, quando a pessoa nunca teve independência financeira. Aí começa a receber um salário e gasta mais do que recebe com celular, com tênis, com experiências”, explica Monique.

    Henrique corrobora: “O estilo de vida do millennials opera em uma lógica diferente do que o sistema financeiro espera. É uma geração que, do ponto de vista financeiro, não constrói credibilidade para acesso ao crédito: não tem um trabalho estável e trabalha como freelancer, por exemplo. Se eu fosse um banco e tivesse na minha frente um clássico millennial e um clássico geração X, eu com certeza ia liberar o crédito para a geração X (risos)”.

    Desapego com o tradicional

    O consenso é que as pessoas precisam morar – então o millennial irá consumir o mercado imobiliário de alguma maneira. Seja morando com os pais, morando de aluguel ou procurando maneiras alternativas de acessar a compra do imóvel. Assim, surgem players e startups para atender às novas demandas financeiras dos millennials. Além dos novos bancos digitais, CredPago é exemplo de player que digitaliza e promove acesso facilitado ao aluguel.

    Na compra e venda, há players como a Homelend, que focam na tecnologia para desburocratizar o acesso a financiamentos, ou a EmCasa, que inclui nos seus serviços o acesso mais fácil ao crédito imobiliário.

    Já a Mycon é uma fintech que oferece um serviço de consórcio digital. “Na nossa experiência, o millennial tem dificuldade de conseguir crédito e de arcar com um valor mensal alto. Então, o consórcio vem como solução, inclusive, para os millennials que continuam morando com os pais, mas querem sair de casa eventualmente”, afirma Marcio Kogut, CEO da startup .

    E continuar morando com os pais não é um grande problema. “Os millennials já são uma geração de filhos únicos. Então, não é um problema para a família que continuem morando na casa dos pais. E muitos adiam a formação de família, adiam o casamento e suspendem totalmente o plano de ter seus próprios filhos”, explica Marcus.

    Os novos formatos de família: menos filhos, mais pets, a experiência que a geração Y aspira é o que muda os novos imóveis. “O millennial se pergunta ‘qual a vivência que eu quero ter da cidade? Da minha casa?’ Então, ele muda toda a configuração do imóvel. Quer um espaço híbrido, uma cozinha menor, um quarto menor, mas talvez um espaço de socialização maior. A inovação é a incorporadora entregar um apartamento sem divisórias e o cliente coloca a parede onde preferir”, sugere Henrique. Marcus concorda: “O futuro está nos projetos novos, inteligentes e intercambiáveis. Assim, você elimina espaços que o cliente nunca usaria na sua casa para atender as demandas de maneira mais assertiva”, conclui Marcus.

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