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Opinião

Formação de corretores: é hora de rever os cursos técnicos em transações imobiliárias?

Denis Levati
Escrito por Denis Levati em 27 de novembro de 2020
Formação de corretores: é hora de rever os cursos técnicos em transações imobiliárias?
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Profissões regulamentadas, como a do corretor de imóveis, possuem direitos e garantias para que seus representantes possam exercer seu trabalho, cumprindo suas obrigações segundo as leis que regimentam a atividade. 

Entre as obrigações iniciais está a formação educacional técnica que, uma vez cumprida,  permite e habilita o profissional a exercer suas funções. No caso do corretor de imóveis, a formação se dá através da conclusão do curso Técnico em Transações Imobiliárias ou de cursos universitários de Gestão Imobiliária.  

Com normas regulamentadoras criadas na década de 1970, é possível dizer que os cursos de formação de corretores possuem grande defasagem em sua grade curricular. Chegando a oferecer praticamente o mesmo conteúdo desde que a profissão foi regulamentada. 

Mas será que a formação oferecida pelos cursos de TTI é suficiente para os profissionais do Século XXI? Será que as demandas dos consumidores, tão acostumados às dinâmicas da internet, são atendidas pelos milhares de corretores formados anualmente nos cursos presenciais ou online pelas escolas especializadas?

Julgando pela experiência de quem já se formou e de quem tem contato com dezenas de corretores pelo Brasil,  posso dizer que no mínimo existe uma grande diferença entre a expectativa de quem faz a matrícula e a realidade de quem se habilita para o mercado. 

É lugar-comum, no cotidiano das imobiliárias, escutar que os cursos habilitam, mas não preparam os corretores formandos para o mercado. Que é apenas no dia a dia que se alcança o conhecimento e as técnicas necessárias para atuar com desenvoltura e atingir resultados expressivos para um profissional liberal.  

É bem verdade que outros mercados possuem cenário semelhante, mas como representante do mercado da moradia, compartilho com você uma pesquisa que fiz no site do COFECI para entender um pouco mais sobre a formação do profissional de moradia no Brasil. 

A formação técnica como requisito para a regulamentação da profissão de corretor de imóveis

A primeira lei que regulamenta a profissão de Corretor de Imóveis é de 1962 (Lei nº 4.116) e foi fruto de muitos debates entre aqueles que já exerciam a profissão por conhecer o ofício no seu dia a dia. 

Foi determinado, sem um prazo definido, que um curso técnico deveria ser criado, mas nada foi feito neste sentido pelas entidades que organizavam a classe a esta época. Até que, em 1976, o Supremo Tribunal Federal cancelou o reconhecimento da profissão por um motivo ligado justamente à formação: a falta de capacidade técnica para o exercício da atividade

A alegação para a inconstitucionalidade da lei, segundo o  STF, foi a seguinte: já que não existia um curso técnico, engenheiros, arquitetos e até mesmo agrônomos, que possuíam cursos regulares e conhecimento técnico, também poderiam avaliar e vender imóveis.

Em resposta a esta ação e como primeiro passo para reconfirmar a regulamentação da profissão, foi criado junto ao Ministério da Educação o curso técnico em transações imobiliárias. 

As disciplinas do curso incluíam: comunicação, matemática financeira, operações imobiliárias, economia e mercado além de desenho arquitetônico. 

Com uma formação acadêmica, finalmente a profissão de corretor de imóveis foi reconhecida na lei nº 6530/1978 e estabeleceu o Conselho Regional dos Corretores de Imóvei, o CRECI, como órgão fiscalizador. 

Desta data até nossos dias, meados do Século XXI, o comportamento do consumidor e a própria sociedade mudou muito, tendo a internet como principal balizador dessa transformação. Mas a formação técnica do corretor de imóveis permanece praticamente a mesma, deixando uma grande defasagem em uma profissão tão importante, que demanda muita atualização.

Em mais de 40 anos desde que a profissão foi regulamentada, apenas uma revisão na grade curricular foi publicada através da resolução nº 717 de 2001. Este adendo à lei estabelece a grade mínima de competências a serem adquiridas pelos estudantes do curso de T.T.I. 

São praticamente a mesmas, sempre nas versões presencial ou online: Comunicação e Expressão em Língua Portuguesa; Noções de Relações Humanas e Ética; Matemática Financeira; Direito e Legislação; Organização e Técnica Comercial; Operações Imobiliárias (Avaliação de Imóveis); Economia e Mercados; Marketing Imobiliário; Desenho Arquitetônico. 

Mas será mesmo que estas disciplinas são suficientes para formar o profissional do Século XXI? Eu desconfio que não e acredito que novas revisões se fazem urgentes para que, dessa vez, a sociedade e não o STF determine que a profissão deve ser extinta por “falta de capacidade técnica para o exercício atividade” 

Habilidades do Século XXI para corretores de imóveis

Um dos principais anúncios do CRECI de São Paulo em 2020 foi o oferecimento do curso de TTI em parceria como renomado Centro Paula Souza, na modalidade EaD. Com mais de 400 horas de conteúdo, imaginei que o curso poderia conter uma grande revisão em sua proposta, mas segue as mesmas normativas da resolução 717/01. 

Mas que disciplinas poderiam conter um curso moderno de formação de corretores? Que habilidades poderiam ser abordadas com mais profundidade para que finalmente a profissão possa ser inserida a uma sociedade que tem na internet seu principal ambiente de negócios e relacionamento?

A resposta simples seria incluir na grade disciplinas e conhecimentos que demandam atenção dos profissionais do mercado como, por exemplo: marketing digital, técnicas modernas de negociação online, fotografia imobiliária e home staging, entre outros temas relevantes e urgentes. 

No entanto, vivemos um limiar de um novo tempo e boa parte das escolas e entidades de ensino estão revendo suas propostas pedagógicas. Essa revisão minimiza habilidades técnicas e enfatiza habilidades humanas e com propósito de existência. 

A pandemia de coronavírus demonstrou que a capacidade de lidar com mudanças e o cuidado com as pessoas serão habilidades necessárias para os profissionais do futuro. Isso é também uma realidade no mercado imobiliário. 

É claro que o conhecimento técnico seguirá sendo importante, ainda mais em um cenário onde a inteligência artificial e a internet das coisas irão alterar as residências e exigir ainda mais dos corretores de imóveis. 

Certamente precisaremos aprender inteligência emocional para ajudar uma família a escolher sua próxima moradia, criatividade para apresentar opções de imóveis entre as opções que existirão com cada vez mais complexidades, além da capacidade de trabalhar em grupo para reunir e interagir com as diversas novas funções que estão surgindo em uma imobiliária. 

É difícil prever qual será o futuro dos cursos de formação de corretores e de sua grade curricular, mas para atender a sociedade e formar profissionais mais alinhados a cumprir propósitos, é claro que eles precisam ser revistos, inclusive seu tempo de duração. 

Os profissionais do mercado imobiliário do futuro não farão cursos de seis meses de duração ou de 400 horas de conteúdo. Mas estarão associados a escolas que ofereçam conteúdos continuados, de troca de ideias e de aprendizado constante. 

É nisso que acredito e esse é um dos temas que mais tenho estudado nos últimos tempos. Se você tem alguma sugestão ou algum complemento ao tema, fique à vontade para usar o espaço de comentários ou me enviar um e-mail para denis.levati@cupola.com.br

Um abraço e até o próximo artigo. 

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